O Pacificador debaixo do Guarda-Chuva
O cenário era um bar no interior da Síria (ou o que sobrou dele). O clima lá dentro estava mais quente que asfalto de meio-dia, mas lá fora o céu estava desabando em uma chuva digna de construir uma arca.
1. A Entrada de "Elite": Ferraz encostou a viatura com a precisão de um sniper. Desceu do carro com um semblante fechado, segurando um objeto longo, preto e cilíndrico com as duas mãos. Entrou no bar com a "arma" em punho, apontando estrategicamente para o epicentro da confusão.
O pânico foi instantâneo. — "É UM FUZIL! ELE VAI ATIRAR!" — gritou um cliente, mergulhando atrás de uma mesa de sinuca. Os brigões, que estavam prestes a trocar socos, congelaram. Um deles levantou as mãos, o outro se ajoelhou pedindo perdão pelos pecados desde a primeira comunhão. Ferraz, com o dedo no gatilho, fez o movimento decisivo.
Fwoosh! Um guarda-chuva gigantesco, daqueles que parecem uma tenda de circo, abriu-se com um estalo metálico. Ferraz apenas olhou para o teto furado do bar, se ajeitou sob a sombra seca e soltou seu mantra: — "Beleza, véi? Tá chovendo pra caramba lá fora, né?"
2. O Interrogatório da Tartaruga: O bar inteiro soltou um suspiro que quase apagou as luzes. Aliviados, mas ainda nervosos, os brigões saíram para a calçada para explicar a treta. E foi aí que a genialidade do "Beleza Véi" brilhou.
A chuva castigava. O vento soprava. A água subia no tornozelo.
— "Seu guarda, ele começou! Ele falou da minha mãe!" — gritou o Brigão A, já com a camisa colada no corpo. Ferraz, seco como um deserto sob sua cúpula de nylon, inclinou a cabeça: — "Peraí, véi... Não entendi. Falou da sua mãe ou da sua irmã? Repete aí, com calma, que o barulho do trovão atrapalhou."
3. A Guerra de Atrito Hídrico: Duas horas se passaram. Duas horas. Os brigões já não tinham mais pele seca. Eles tiritavam tanto que os dentes pareciam uma escola de samba. — "Doutor, por favor... a gente já explicou dez vezes..." — implorou o Brigão B, que agora parecia um peixe fora d'água. Ferraz, tranquilíssimo, olhou para o relógio: — "Beleza, véi. Mas me conta de novo aquela parte do empurrão. Foi com a mão esquerda ou a direita? Seja claro, a justiça precisa de detalhes."
4. A Paz pelo Resfriado: A paciência dos sujeitos evaporou junto com o calor do corpo. Encharcados, roxos de frio e com o nariz escorrendo, os dois se olharam. — "Quer saber? Eu te perdoo!" — disse o Brigão A. — "Eu também! Vamos entrar e tomar um chá quente, pelo amor de Deus!" — respondeu o Brigão B.
Eles entraram no bar abraçados, unidos pelo ódio compartilhado à burocracia infinita do Ferraz.
O Relatório de Terra Distante
Ferraz fechou o guarda-chuva, sacudiu a água e anotou no caderninho: "Crise pacificada. Equipamento utilizado: Sombrinha Tática Nível 3. Observação: O diálogo é a melhor arma, principalmente se o interlocutor estiver pegando uma pneumonia."
Na Terra Distante, o Ferraz é respeitado. Ninguém quer discutir com ele, porque sabem que a conversa vai durar até a próxima era glacial e ele é o único que trouxe casaco.
