terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Mistério do "Petroleiro" Corno



O Mistério do "Petroleiro" Corno

O sol de meio-dia no pasto do Afeganistão não estava para brincadeira. A viatura de De Souza e M. Vinicius parecia uma airfryer sobre rodas. A denúncia na central era grave: "Ossada humana abandonada".

Ao chegarem, De Souza, que se autointitula o "Sherlock Holmes do Agreste", desceu da viatura ajustando os óculos escuros. Olhou para o monte de ossos brancos sob o sol e sentenciou:

— Vinicius, isola tudo! É um crime passional de alta periculosidade. O elemento era um figurão, provavelmente do ramo do petróleo.

— Petroleiro, De Souza? Como você sabe? — perguntou Vinicius, esticando a fita zebrada num galho de algaroba.

— Elementar, meu caro parceiro! Olha o figurino: o corpo está envolto em couro legítimo. Só gente da alta usa uma jaqueta dessas até depois de morto. E veja o crânio... o sujeito era tão rico que a galhada não era de osso, era um monumento à infidelidade!

Três horas depois, surge o perito. O homem veio de outro estado, atravessou três pedágios e duas fronteiras, suando mais que tampa de marmita.

— Peço desculpas pelo atraso, cavalheiros! — disse o perito, abrindo a maleta de inox. — Onde está a vítima da barbárie?

De Souza, com a mão no peito em sinal de respeito, levantou a lona preta com a solenidade de quem abre um sarcófago egípcio.

O perito olhou. Piscou. Tirou os óculos. Limpou o suor. Olhou de novo.

— Vocês... vocês estão me tirando, né? — a voz do perito saiu num sussurro perigoso. — Me fizeram cruzar o mapa para periciar... UM BOI? Isso é uma ossada de um bovino, seus abençoados!

De Souza deu um passo atrás, indignado:

— Mas doutor, olha o respeito! Eu sabia que o crime era passional, mas o senhor é vidente? Já descobriu que o finado era "boi" só de bater o olho? A traição foi nesse nível?

O perito explodiu, os veios da testa pareciam o mapa hidrográfico do Brasil:

É UM QUADRÚPEDE! UM RUMINANTE! ISSO TINHA QUATRO PATAS E FAZIA "MU"!

Vinicius, sempre zeloso pela paz mundial, interveio:

— Baixa o tom, doutor! O senhor está alterado. O "seu" Boi — se é que esse era o sobrenome do falecido — pode ter parentes aqui perto ouvindo. Um pouco de ética profissional com o morto, por favor.

O perito fechou a maleta com tanta força que quase decepou os próprios dedos. Entrou na viatura, engatou a ré e já ia saindo quando De Souza gritou:

— Ô, DOUTOR! E O CORPO? O que eu faço com o que sobrou do Petroleiro?

O perito parou o carro, respirou como se estivesse tentando não cometer um crime real ali mesmo e rosnou:

— Leva pro cemitério da TERRA DISTANTE e enterra fundo! De preferência, junto com o Tico e o Teco de vocês que fugiram de casa!

Enquanto a poeira da viatura do perito baixava, De Souza olhou para o crânio de chifres imensos e comentou:

— Tá vendo, Vinicius? O perito ficou tão traumatizado com a cena que perdeu a linha. Mas veja a semelhança dos crânios... se esse cara não era um petroleiro traído, ele era o dublê de corpo do Minotauro!