quinta-feira, 7 de maio de 2015

ESSA É PIKA !



O CASO DO "CALIBRE DESCONHECIDO"

Era uma manhã ensolarada e a dupla dinâmica, Ricardo Pocotó e Pereira 67 (AMBOS FICTÍCIO), estava com mais vontade de trabalhar do que estagiário em primeiro dia de firma. Ao dobrarem a esquina, avistaram um rapaz cercado por estudantes. Quando as meninas viram a viatura, deram um pique de Usain Bolt e sumiram.

— "Ih, Pereira! Olha o elemento! As novinhas fugiram, deve estar armado até os dentes!" — alertou Pocotó, já com a mão no coldre.

Ao descerem, o alvo estava lá, estático, com um volume na cintura que parecia um silenciador de bazuca. Pocotó, mestre na arte da revista, deslizou a mão com a sutileza de um rinoceronte.

"PEREIRA, ACHEI! É UMA CANHÃO! O CARA TÁ COM UMA PONTO 50 NA CINTURA!" — "Senhor, pelo amor de Deus, eu não tenho arma!" — gritava o rapaz, que já estava mudando de cor.

Pocotó agarrou o "armamento" com as duas mãos e começou a puxar. Mas a arma parecia ter vida própria. Ele puxava, o rapaz dava um agudo de ópera; ele sacudia, o rapaz revirava os olhos.

— "Ô Pereira, a bandolagem dessa arma tá presa na alma dele! Não sai!"

Foi aí que a ficha caiu: o "ferro" era, na verdade, o orgulho e alegria do rapaz, que estava em estado de prontidão máxima devido ao susto (ou à genética privilegiada). Mas como já tinha uma multidão filmando, Pocotó não podia admitir o erro.

A Missão: "Manter o Flagrante"

Pocotó pegou o rádio com a seriedade de quem reporta uma invasão alienígena: — "Maré, o setor conduz elemento por... por... Conduta Balística Inconveniente!" — "Copiado. Do que se trata exatamente?" — "O elemento está... extremamente... rígido perante a lei. Solicito apoio para manter a prova." — "Positivo! Cuidado para não perder o flagrante no caminho!"

No banco de trás, o drama começou. Com o medo da arma de verdade apontada para ele, o rapaz começou a sofrer de "murchamento tático". A prova do crime estava desaparecendo!

— "CORRE, POCOTÓ! A PROVA TÁ SUMINDO! O FLAGRANTE TÁ FICANDO MEIA-BOMBA!" — desesperou-se Pereira 67.

Pereira, num ato de puro heroísmo policial (e total falta de noção), começou a fazer o que ele chamou de "massagem de preservação de evidência".

— "Tá difícil, Pocotó! Tá batendo a paumolessência! O cara tá entregando os pontos!" — "FAZ RESPIRAÇÃO BOCA-PAU NELE, PEREIRA! NÃO DEIXA A JUSTIÇA CAIR!"

O Desfecho

Chegaram na DP com a sirene ligada e o rapaz no limite da sanidade mental. O escrivão olhou para o relatório, olhou para o Pereira suado, olhou para o rapaz traumatizado e simplesmente rasgou o papel.

Dizem que, desde esse dia, na Terra Distante, o uso de medicamentos azuis é crime inafiançável, pois a polícia local não tem estrutura psicológica para lidar com "armamentos" de tamanha magnitude.








quarta-feira, 6 de maio de 2015

UM MORTO VIVO CHAMADO LUCAS





O Milagre (ou Pesadelo) do Fred Zoinho

Fred Zoinho, o policial mais "caveira" da região, estava lá: farda passada, postura de estátua e a paciência de um monge tibetano. Diante dele, um corpo à beira da estrada. Fred, eficiente como um relógio suíço, já tinha acionado a perícia, o rabecão e até o espírito santo, se fosse necessário.

Tudo ia bem, até que surge a figura: Seu Tião. Seu Tião não caminhava, ele flutuava num rastro de cachaça que poderia ser detectado por satélite. Ele se aproximou do corpo com o equilíbrio de uma gelatina num terremoto.

Deixa eu ver... é meu filho! É o Lucas! — gritou o velho, desabando em lágrimas que eram 70% álcool etílico.

Fred, mantendo a postura operacional, perguntou com aquela voz de locutor de rádio: — O senhor tem certeza, cidadão?

Tenho! Mas pera... deixa eu ver o pé dele.

Fred levantou o lençol só na altura do chulé. Seu Tião olhou para os dedos do falecido como se estivesse analisando uma obra de arte no Louvre. — Óh meu Deus! É o pé dele! Esse dedinho torto não engana! Era vagabundo, mas era meu filho!

O Caos se Instala

A partir daí, o que era uma ocorrência virou um capítulo de novela mexicana. A família chegou em peso, uma gritaria de "Ai, meu Lucas!", "Por que ele?", "Logo agora que ele ia mudar de vida!".

Fred, o mestre da burocracia, aproveitou a agilidade da família (que brotou com documentos do nada) e preencheu tudo. Nome, CPF, filiação, histórico, cor dos olhos... Fred escreveu tanto que a caneta quase pegou fogo. O corpo já estava periciado, ensacado e pronto para o descanso eterno sob o nome de Lucas.

A Aparição

Quando Fred estava dando aquele "check" final na papelada, sentindo aquele prazer de missão cumprida, ouve-se um grito ao longe:

Ô PAI! QUE QUE TÁ CONTESCENDO AÍ, Ô VELHO?

Era o Lucas. O próprio. Vivinho, com os dois pés no chão e uma latinha na mão.

O silêncio que se seguiu foi tão grande que deu para ouvir o barulho do cérebro do Fred fritando. Seu Tião parou de chorar na hora, olhou para o filho, olhou para o saco preto, deu um sorriso de quem ganhou na loteria e gritou:

LUCAS! VOCÊ TÁ VIVO, MEU FILHO!

Fred, com a caneta ainda na mão e o olhar de quem estava prestes a coringar, interveio com a voz trêmula: — Seu Tião... se esse aí, que tá bebendo uma, é o Lucas... QUEM É ESSE INFELIZ QUE EU JÁ CADASTREI NO SISTEMA ATÉ COM TIPO SANGUÍNEO?

Seu Tião, com a maior naturalidade do mundo, deu de ombros: — Ah, Sub... esse aí pode ser qualquer um desse mundão de Deus. Mas uma coisa eu garanto: o pé dele é igualzinho ao do meu moleque!


Conclusão

Dizem que, naquele momento, Fred Zoinho não disse uma palavra. Ele apenas guardou a caneta, pegou sua mochila e começou a caminhar em direção ao horizonte.

Hoje, Fred vive em uma cabana isolada na Terra Distante, onde o único documento que ele aceita preencher é a lista de compras — e só se não envolver reconhecimento de pés.